Aprendi mais com uma criança do que em qualquer curso de limpeza

Reflexão sobre como o trabalho doméstico também é aprendizado

Quando a gente entra numa casa para trabalhar, sempre espera encontrar sujeira, bagunça, rotina, corrida contra o tempo. Mas às vezes bem raramente a gente encontra algo que muda a gente por dentro. Foi assim comigo. E o responsável por isso tinha apenas 4 anos.

Eu já trabalhava como empregada doméstica há muitos anos quando fui chamada para trabalhar nesta casa. Era uma família comum, daquelas que vivem entre o trabalho, escola, compromissos e pressa. O que eu não sabia é que seria justamente naquela correria que eu aprenderia lições importantes na minha vida profissional e pessoal.

A criança se chamava Davi. Pequeno, magro, loirinho, dos olhos azuis mais lindo que eu já ví; de um olhar curioso, daqueles que parecem observar tudo com olhos de lupa.
E ele observava. Observava mais do que qualquer adulto que eu já tinha visto.

O menino que transformou uma rotina

A curiosidade que me desmontou

Logo no primeiro dia, enquanto eu varria o corredor, senti que estava sendo estudada. Olhei de lado e lá estava ele, parado, com a cabeça inclinada e as mãos atrás das costas.

Por que você passa a vassoura assim?” Perguntou.

A pergunta me fez rir. Ninguém nunca deu importância para como eu segurava uma vassoura.

Expliquei que era para juntar a poeira num só canto, para não levantar tanta sujeira.
Davi ouviu como se eu estivesse ensinando um segredo de mágica

Ah… então limpar também tem jeito certo.”

Aquela frase ficou marcada em mim.
Uma criança de 4 anos me lembrando que meu trabalho tem técnica, tem valor, tem lógica, tem inteligência.
E que às vezes a gente esquece disso porque é muita luta diária, muito cansaço, muita correria.

O dia em que ele me mostrou algo que eu não enxergava mais

Quando a simplicidade vira mestre

Uma semana depois, eu estava limpando o quarto dele.
Davi entrou, sentou na cama e ficou em silêncio.
Até que apontou para uma caixa de lápis no chão e disse:

Você sempre junta meus lápis por cor. Por quê?

Respondi sem pensar:

Porque assim você acha mais fácil quando precisar.

Ele ficou uns segundos analisando aquilo e fez uma revelação que me desmontou:

Eu achava que você fazia isso porque gostava de mim.

Naquele instante entendi algo que ninguém nunca me ensinou:
para uma criança, cuidado e limpeza são a mesma coisa.

Eu não estava apenas organizando lápis.
Eu estava organizando o mundo dele.
Eu estava dizendo, sem palavras: “Eu me importo, eu gosto de você.”

A lição mais importante que aprendi com ele:

A família de Daví morava no sul do país, local colonizado por europeus. O Daví era loiro e tinha os olhos bem azuis. Eu descendente de negros por parte da família do meu pai e brancos por parte da família da minha mãe. Sou uma pessoa que na região sudeste do Brasil chamam de morena. Mas me considero negra. Um dia estava conversando com a mãe dele; não me lembro o assunto que estávamos falando e eu disse que me via como negra. A mãe me corrigiu neste instante e disse: Não você é branca. O Davi que a tudo ouvia com muita atenção, disse com toda naturalidade e com toda pureza de uma criança que é livre de preconceitos. Não mamãe ela não é branca, ela é marronsinha. Amei o marronsinha. Para mim a denominação dele para o meu estereótipo foi o correto. Eu era muito ligada a essa criança e ele a mim. eu trabalhava como empregada doméstica na casa. No almoço ele gostava de me ajudar, fazendo coisas tipo, passar os bifes na farinha e ovo para eu fazer bife a milanesa. Uns dias depois dessa conversa eu me sentei ao lado dele no chão da sala e ele fez uma coisa que nunca me esqueci e achei muito fofo. Ele colocou o braço dele do lado do meu braço olhou compenetrado, comparando a minha cor da dele e disse: Que lindinha, marronsinha, oh tão lindinha. Fiquei encantada com o jeitinho que ele me olhava e dizia essas palavras. Eu vi na conversa dias antes e naquele momento toda a sinceridade e pureza de uma criança. Que o adulto geralmente não tem. O que aprendi com isso foi que comecei a me olhar com outros olhos; a gostar da cor da minha pele; do meu cabelo; a ver que a cor da minha pele “marronsinha” é linda. Hoje muitos anos passados ainda me lembro com muito amor e carinho do Daví. Ele era um menino encantador, que ficou no meu coração e me fez olhar para mim mesma e gostar de mim do jeitinho que eu sou. Aprendi também que o adulto é cheio de preconceitos, mas a criança não; a criança é sincera em tudo o que ela vê e fala.

O trabalho da empregada doméstica e diarista é observado com mais carinho do que a gente imagina

Os adultos fingem que não vêem.
As crianças vêem tudo.

Regras e técnicas são importantes, mas a intenção por trás delas é o que toca o coração de quem vive na casa

Organização vira cuidado.
Limpeza vira conforto.
Silêncio vira abraço.

A sensibilidade de uma criança é capaz de restaurar o valor do nosso próprio trabalho

Quando você trabalha anos e anos em casas diferentes, vai sentindo que está no automático.
Mas uma criança te faz perceber que o automático também é amor escondido.

Bondade não precisa ser falada, só percebida

E a criança percebe. Ela sente o amor, o cuidado e a proteção que o trabalho da diarista e da empregada doméstica proporcionam nas suas vidas. Porque não se trata apenas de limpeza, mas de muito cuidado, amor, carinho e aconchego.

O dia em que os papéis se inverteram

Ele me ensinou sem nem saber

Uma tarde, a mãe de Davi atrasou muito para buscá-lo na escola e chegou em casa desesperada.
Eu estava lá, terminando de arrumar a cozinha.

O menino correu até mim, agarrou minha cintura e disse:

Hoje eu aprendi uma coisa importante: você é meu lugar seguro.”

Lugar seguro.
De todas as palavras que eu ouvi na minha vida de empregada doméstica, essa foi a mais inesperada.

Naquele momento compreendi que meu trabalho não era só física e silenciosa.
Era emocional também.

Eu, que entrei naquela casa para limpar, acabei sendo parte da rotina afetiva de uma criança.
E isso nenhum curso ensina.

O que ele me ajudou a enxergar no meu trabalho

Para quem vive a rotina doméstica, aqui está o que aprendi com Davi, e que carrego até hoje:

A casa é um ambiente emocional, não apenas físico

Quando a gente limpa, reorganiza sentimentos, acalma ambientes, devolve respiro.

O jeito importa

O gesto simples de arrumar uma cama, dobrar uma roupa, juntar brinquedos vira mensagem.

A presença da empregada ou diarista faz diferença, mesmo quando não é reconhecida

As crianças são prova viva disso.

Elas são verdadeiras e dizem o que realmente vêem e sentem.

O afeto está escondido nos detalhes

E são esses detalhes que constroem a confiança e acrescentamos gotículas de amor. É nas pequenas coisas que fazemos nesse trabalho tão desvalorizado no nosso país, que podemos fazer uma grande diferença, na vida de uma criança e também na vida de toda a família.

A gente aprende enquanto trabalha

Aprende sobre pessoas, sobre emoções, sobre paciência, sobre humanidade.

Aprendemos também, que devemos colocar muito amor no simples ato de limpar.

Porque o amor, é energia que contagia, revigora e proporciona paz e alegria naquele lar.

A mudança que ele deixou em mim

Depois daquela casa, nunca mais trabalhei da mesma forma.
Entendi que:

  • limpeza também educa
  • organização também acolhe
  • rotina também cria vínculos
  • e que uma criança é pura de sentimentos e verdadeira em tudo que diz

Às vezes pensamos que estamos só cumprindo horário.
Mas tem alguém observando, aprendendo, absorvendo.

E, no caso do Davi, ele me ensinou sem nem perceber.

O que fica depois de tudo isso

Até hoje me lembro das palavras dele.
Toda vez que pego uma vassoura, arrumo brinquedos, organizo uma cozinha bagunçada, penso no menino que achou que eu organizava lápis por cor porque gostava dele e que me disse que achava a minha pele marronzinha muito linda.

E sabe de uma coisa?
No fundo, ele conseguia ver e sentir o que os adultos não conseguem ou não querem ver.

Porque a gente não trabalha só com mãos.
A gente trabalha com presença, respeito e cuidado.

Foi com aquela criança que aprendi que meu trabalho não é pequeno.
É importante, é profundo, é cheio de significado.

Aprendi a me olhar com outros olhos, a gostar de mim do jeito que eu sou

E que, às vezes, quem ensina não é quem tem mais experiência.
É quem tem mais pureza.

Às vezes, um curso não ensina nada perto do que uma criança é capaz de ensinar.

Comments

    1. Tia Sandra Post
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      Tia Sandra

      Se conseguíssemos permanecer com essa pureza e verdade genuínas de uma criança, com certeza seríamos adultos melhores.Que bom que você gostou Simone. Obrigada por postar sua opinião.

  1. Dora

    Amei, ❤️
    Se aprende todos os dias,com as pequeninas coisas,o trabalho vai além da limpeza,e o cuidado diário, carinho que transformam vidas.

    1. Tia Sandra Post
      Author

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